1.2.11

NÓ CEGO

Dá pra se imaginar a inutilidade de um cadarço ou corda, de tênis, bermuda ou qualquer objeto que seja empregado se estiver cheio de voltas que não amarram, nós que não prendem?

Muitas vezes acontece e a melhor solução, sempre que possível, pelo menos para mim, é passar a faca, tesoura ou alguma ferramenta capaz de cortar na raiz o problema.

Quando este termo, metaforicamente, é utilizado em outros contextos, no serviço - por exemplo -, os danos são parecidos, agravados com a atribuição do cargo.

Em todos os serviços de que se tem notícia eles estão lá, inertes e sem função. Um caixa de banco que atrasa seu atendimento e não cumpre sua finalidade, policiais, políticos, advogados, professores, enfim. Nenhuma classe está imune dos colegas de trabalho “nós cegos”.

Nenhuma carreira, porém é tão cheia deles como a de servidores públicos. Em todas as esferas de governo e em qualquer das casas de atuação, existem incontáveis espécimes desta raça, a ponto de a classe cair no conceito popular de que não trabalha, fica esperando o tempo passar e recebe quantias altas para desempenhar pequenas funções.

Para comprovar este conceito popular enraizado em nossa cultura, basta ver em conversas com amigos e parentes a visão que cada um, singular, assim como o senso comum, tem da cidade de Brasília, que é a maior concentração de políticos e de órgãos públicos.

Desde órgãos tão tradicionais e modelos de reformulação de sistemas de valores e da administração pública em geral - como tem sido o poder judiciário -, aos menos preocupados com o servidor e com o emprego de verbas públicas, não há quem não cite a presença maciça de pessoas sem capacidade, ou vontade, de executar as competências para as quais foram designadas.

A diferença entre estes órgãos é que enquanto os preocupados tentam minimizar a quantidade e os efeitos causados pelos nós cegos no grupo e nos serviços apertando cada vez mais a fiscalização e mostrando um modelo eficaz de administrar recursos materiais e humanos, outros parecem alimentar o sistema e as crenças populares no sentido de fazer vistas grossas à extrema falta de compromisso e interesse dos servidores, que na medida em que o tempo passa sem nada que desabone suas progressões funcionais - já que chefes se mostram igualmente desinteressados com o serviço -, ficam mais fortes e influentes em seu setor e seus órgãos.

Há que se ressaltar, todavia, que, mesmo em órgãos não preocupados com a função pública inerente a cada atividade, é minoria a presença de funcionários sem know-how ou sem interesse para exercer suas atividades. Isto posto, os transtornos causados por eles não podem ser calculados com exatidão pela administração tamanhos que são.

De qualquer forma, há que se ressaltar também a presença forte, mesmo nos mais atrapalhados órgãos da gestão pública e administrativa, de servidores engajados em seus serviços e no papel que exercem na carreira pública, o que me fortalece a esperança, como membro de um destes órgãos públicos e como membro da sociedade, em melhorias administrativas e funcionais no estilo brasileiro de gestão da administração e dos recursos públicos em geral.

Sim, como cidadão e servidor acredito que estamos (a passos lentos, é verdade) evoluindo em nossa recente história democrática e administrativa para um ponto onde o próprio servidor, os companheiros, o chefe imediato ou o público atendido no determinado serviço não mais permitirão tão facilmente a falta de compromisso/competência/capacidade de quem ingressa na vida pública.