13.4.10

O direito moderno e a inquisição

Recebi, por e-mail, uma crítica ferrenha de um advogado de Belo Horizonte sobre a postura e a influência da mídia no julgamento mais comentado do ano, (certamente não precisaria de um aposto nesse momento, pois todos sabem que me refiro ao casal Alexandre e Anna Jatobá, mas assim mesmo o faço).

Quem me mandou este texto foi minha mãe, uma futura advogada que merece muito respeito e orgulho meu. Ainda assim - tomando como um bom momento para debater o assunto, e como uma agulhada da minha mãe, que não pode ficar sem resposta - ousarei criticar alguns dos argumentos utilizados no texto.

Prometi a mim mesmo que não teceria qualquer comentário público sobre o assunto, para não cair no "agenda-setting" e no circo que a grande mídia transformou esse caso, mas preciso descumprir essa promessa.

Antes que comece com as críticas, é preciso salientar que o advogado tem razão ao dizer que a imprensa teve papel importante na "caça aos culpados" ou, como o próprio se refere, na busca por "justiça".

Em partes, eu concordo fielmente com o texto, com o poder que a mídia designou sobre as pessoas neste caso, que certamente teve papel diferenciado na retumbante concentração que influenciou a massa (e digo influenciar embasado na origem da palavra - preencher com fluido algo que era, a priori, vaz
io).

De qualquer forma, falar que somos – os jornalistas - culpados pela condenação do casal, pela paixão dos brasileiros por este acontecimento, é perigoso e pode, em algum argumento passional de defesa, aliviar uma possível sentença.

Não! Ninguém plantou isso! Ninguém estava no Edifício London esperando alguém cair lá de cima pra fotografar e relatar. A imprensa teve papel importante nesse resultado, mas este - o resultado - foi embasado por um órgão que, se não é tão respeitado na ótica da crítica do advogado, deveria ser, porque na lei brasileira, o tribunal, o júri, tem autonomia para decidir.

Se este jurista, e também minha mãe, estiverem insatisfeitos com a intensidade da cobertura ou com a mídia em geral, sugiro, em ambos os casos (com diferentes intensidades de desejo) que se mudem para a China ou para a Coréia do Norte, onde o papel dos jornalistas é sempre submetido ao crivo de autoridades ditatoriais.

O engraçado – se é que pode haver algo engraçado em tamanha falta de bom senso de todos os envolvidos no caso Isabela - é ver juristas desmerecendo um órgão importante do sistema jurisdicional brasileiro, que é um dos mais elogiados do mundo, diga-se de passagem, dizendo que a mídia, e sua grandiosa participação no julgamento, promoveu uma inquisição ao casal Nardoni.

Seria menos engraçado se, em meados do ano passado, muitos desses juristas não concordassem com a posição majoritária e quase pacífica do Supremo Tribunal Federal e
m não se exigir o diploma a quem quiser exercer função de jornalista com o principal argumento de que a profissão não causaria grandes riscos à sociedade como outras.

Afinal, se tem – o jornalista – esse poder de transformar um julgamento de um tribunal em que existem legislações específicas; órgãos responsáveis; reputação ilibada e presunção de legitimidade, não seria pertinente escancarar as redações e o know-how da profissão aos que, simplesmente, sabem escrever. Pelo contrário! Seria necessário, cada vez mais, selecionar bons profissionais para ocuparem cargos de tamanha responsabilidade nas grandes redações, certo?

Porém, digo que quem desvalorizou o diploma de jornalista não foi o STF, e sim as instituições que se proliferam a cada esquina do país e que não ensinam absolutamente nada do fora da técnica aos “profissionais” que saem em grandes fornadas. Nada do perguntar; do se manter curioso; do debater ideologias é dito, criando – estas instituições - bonequinhos de ventríloquos que satisfazem seus chefes em redações e apenas isso.

A abertura do jornalismo aos letristas em geral não pode ser boa em quase nenhum aspecto. Por outro lado, leis de controle sobre os conteúdos e a qualidade da educação - de base e superior - para a melhoria dos profissionais formados nessa área devem ser mais bem elaboradas. Pode ser que juristas, que outrora elogiaram o carro chefe do judiciário, estejam, com mais esta experiência, começando a refletir mais profundamente sobre isso.

A mudança do STF se mostrou ineficaz na primeira situação de teste. Cada vez mais (em vez de procurarem - os advogados, acadêmicos e ministros em questão – formas de explicações; teorias e culpados para isto ou aquilo) mostra-se importante um pensamento mais seletivo e selecionado para se mudar eficaz e eficientemente a relação da imprensa com a notícia em geral, ou poderemos, sim, entrar num período de inquisição, também citado pelo texto.

16 comentários:

thales disse...

ÓTIMO TEXTO...O ATO DE JOGAR UMA CRIANÇA INDEFESA PELA JANELA NUNCA DEVERÁ SER ESQUECIDO E JAMAIS PODERÁ DAR LUGAR NAS DISCUSSOES SOBRE TODO O PROCESSO...O FATO DA PRESSÃO SOFRIDA PELOS ENVOLVIDOS NO JULGAMENTO É IRRISÓRIO PERTO DO ACONTECIDO.
thales!

Isabella Santos disse...

Ótimo texto Marcelo, como sempre as faícas se alastram e isso é ótimo. Estava com saudades dos textos do incêndio, amo este blog desde sempre. Minha opinião pessoal e sobre o texto original você já sabe. Abraços.
Isabella

Marcelo de Freitas disse...

obrigado thalão e isa, queridos!
o melhor de tudo, que ainda não coloquei no texto é que o tal advogado deve ser mto prepotente, pq ele fecha o texto com uma frase atribuida a cristo. "eles não sabem o que falam". tem até alguma razão nisso, mas, com certeza, não tem espelho em casa

Pablo disse...

acho que o thales não entendeu a ironia no texto... bueno, não vale a pena.

olá olá, Isabella!! (:

Marcelo de Freitas disse...

poie é, de qualquer forma, ele também não tá errado, pelo contrário!

Pablo Pamplona disse...

tá errado sim. o ato de DEFENESTRAR uma criança é quase nada, comparado a inúmeras outras atrocidades que acontecem e são esquecidas a todo instante.

é um ato covarde, sim, é óbvio, nenhuma dúvida. mas a pressão e o drama gerados pela população, maquiando uma sede de sangue como se fosse justiça e ignorando outras atrocidades, são muito mais covardes e geram MUITO mais danos.

ele defende a pressão e o drama e coloca o crime como se fosse o acontecimento do século.

thales disse...

o fato de existir outras atrocidades que ficam impunes a todo momento,não garante ao acontecido dos nardonis o direito de tb permanecer impune...se houve pressão popular baseada em uma sede de vingança,o correto é a defesa dos condenados contestar a sentença,usando-se de seu direito de defesa,direito esse que foi totalmente retirado da menina isabela ao ser agredida e lançada da janela pelo pai.

O pablo ao falar que o ato de DEFENESTRAR uma criança é quase nada, comparado a inúmeras outras atrocidades que acontecem e são esquecidas a todo instante,me deixa muito triste,pois vejo que não é dado o valor necessário à vida,esquecendo-se do quão difícil é mantê-la.

Abraço tchelão,belo texto mano!

Pablo disse...

eu não disse que o pai e a madrasta deveriam sair impunes. o que digo é que não justifica puní-los por toda a ruindade que reina por aí. o caso foi muito mais falado do que qualquer catástrofe que tenha acontecido nestes anos. eu me lembro de ver até reportagem falando qual foi o primeiro CAFÉ DA MANHÃ do casal na prisão! pra quê isso tudo? demonificaram o casal, eles são as pessoas mais odiadas do país, mais que qualquer político que já tenha destruido a vida de milhões de pessoas, mais que qualquer padre pedófilo, que qualquer policial que abuse de seu poder espancando favelados.

as mesmas pessoas que celebram a "justiça sendo feita", são as que criticam o presidente por mandar dinheiro e tropas do exército pro HAITI, pra ajudar a população, como se nós precisássemos mais do que eles. cadê o senso de justiça?

uma MULTIDÃO foi levantar cartaz na frente do lugar onde os Nardoni eram julgados. claro, porque teve cobertura de todos os jornais. são paulo aqui INTEIRA ouviu os FOGOS DE ARTIFÍCIO. é sério. na hora, eu pensei que era FINAL DE CAMPEONATO ou coisa que o valha, depois que percebi que estávamos em março. e no mesmo dia, a polícia atirava bombas de lacrimogênio e de efeito moral em PROFESSORES da rede estadual que faziam uma manifestação na Zona Sul.

eu não dou valor à vida, né.

Marcelo de Freitas disse...

tá, acho que chegamos, por tabela, num ponto muito complicado e terei que fazer uma auto-crítica à profissão do jornalista, como já fiz no texto.

acho sim que se fizeram um grande circo com o caso Isabela, e que isso teve grande influência na posição do juri e até mesmo na confecção da sentença.

Ai é que tá: Até onde isso tá errado? essa pergunta foi o thales que inseriu, mas eu digo: acho que não tá errado!

Só que concordo com o Pablo, veementemente, que outras atrocidades fazem do caso isabela fichinha na história recente brasileira. Na política, na administração pública, na polícia e talvez na nossa rua.

só que concluo tendente a concordar, de novo, com o thalão em que a interferencia a "busca de justiça" no caso isabela não tá errada, apesar da espetacularização e dos cafés da manhã e rotinas na cadeia. o que tá errado, e muito errado, é a falta de cobertura a essas tantas atrocidades e que deixa esse grande senso de justiça a merce de interesses externos, o que tem que ser muito criticado.

thales disse...

Axo que nós defendemos os mesmos pontos de vista,no entanto,damos maior importância a determinados assuntos discutidos sobre esse texto.Suponho que você deva atuar na área do jornalismo ou direito pablo,por isso,tenha defendido tanto a banalização sofrida pelo caso nardoni(eu tb concordo que existiu) em detrimento da agressão e retirada de vida que sofreu a isabela nardoni.Eu como estudante de medicina,sempre me surpreendo totalmente tendencioso em defender a manutenção da vida.Na faculdade de medicina descobri o quanto é difícil manter a vida e o quanto "milagroso" é o fato dela ter surgido um dia.

ps: agora vai uma crítica pra nós tchelão.Aprendi algumas coisas com essa discussão,e percebi o quanto poderiamos ter discutido e aprendido sobre nossas profissões durante esses anos de amizade...ainda tá em tempo de viajarmos ahhahaha

Pablo disse...

na verdade eu fiz publicidade (: ...parece que não tem nada a ver, mas peguei muita influência das aulas teóricas sobre mídia e sociedade. e muitos debates depois da faculdade também, sobre vários assuntos diferentes.

marcelo, eu não sei se o problema na mídia é exatamente a falta de cobertura a outros casos. não funcionaria dar tanta atenção a tudo o que acontece, só explodiria nossas mentes de tanta desgraça, ou no máximo desagradaria a audiência. a atenção deveria ser mais equilibrada, sim, mas diminuindo a cobertura de casos como esse, e não aumentando a cobertura de todos os demais.

e sobre a questão da mídia no caso... ela teve um papel fundamental pra transformar o caso num espetáculo, mas é com a população que eu mais me surpreendo. ela também contribuiu em levar isso ao extremo que é. então acima de tudo, o que me preocupa não é o papel que a mídia tomou (porque era previsto, a gente sabe da canalhice que acontece), mas a sede de sangue das pessoas e uma noção diminuta e simplória de justiça.

(recomendo ler este texto.)

no mais, fico satisfeitíssimo com o rumo que esse debate tomou. faz uma grande diferença pra mim, e que bom que vcs também gostaram, pelo jeito.

Pablo disse...

outra observação: http://incendioacidental.blogspot.com/2008/12/polcia-mata-rapaz.html

Marcelo de Freitas disse...

"marcelo, eu não sei se o problema na mídia é exatamente a falta de cobertura a outros casos... a atenção deveria ser mais equilibrada, sim, mas diminuindo a cobertura de casos como esse, e não aumentando a cobertura de todos os demais."
tá bom, amigo, me convenceu, tá certíssimo.

uma pergunta: se não fosse a espetacularização da mídia será que a população daria tanta repercussão ao caso?

outra: o que te faz acreditar que a população, por si só, leva mais a fundo esse caso do que tantos outros tão graves ou mais que acontecem a todo momento em nossa sociedade?

outra: baseado na tal canalhice que sabemos existir e no comportamento de nossa sociedade em geral, como separamos o que é "comoção nacional" e "desagradar a audiência"?

perceba que todo argumento, mesmo que pertinente, tem uma variedade grande, só to provocando. como seria masssa uma discussão dessas pessoalmente, kkkkkkk. saudosismo é mato!
Abraço

Marcelo de Freitas disse...

bem pensado, thalão. auto-critica feita a nós. não faltarão oportunidades, mano.

Pablo disse...

"se não fosse a espetacularização da mídia será que a população daria tanta repercussão ao caso?"

certamente que não, assim como não haveria tanta espetacularização se não fosse a repercussão. cobra comendo o próprio rabo.

"o que te faz acreditar que a população leva mais a fundo esse caso"

várias coisas... não vejo pessoas discutindo no dia-a-dia nem multidões nas ruas protestando contra a violência policial, ou pela diminuição da carga horária de trabalho, ou festejando porque político X foi preso (tampouco seria coisa pra se festejar), ou requerindo ajuda pro Haiti/favela no Rio/Nordeste... é só ligar no noticiário, abrir o jornal, e ver se no meio das tragédias houve alguma reação popular (e não segmentada). se houver, fico muito grato em ouvir falar, mas nunca ouço.

num paisinho asiático chamado Quirguistão, o povo formou uma guerra civil, portando metralhadoras, ocupando prédios públicos e botando a polícia pra correr, protestando contra a corrupção. aqui no Brasil, a gente tem o cqc e uma petição online.

"como separamos o que é 'comoção nacional' e 'desagradar a audiência'?"

não entendi a pergunta...

aliás, quanta perguntinha difícil hein? e seria muito bom mesmo pessoalmente!

Marcelo de Freitas disse...

quanto algumas das perguntas, a única coisa que posso fazer é soltar a minha visão, nada concreto. por isso, eu e Pablo estamos discutindo paralelamente e, em breve, venho com algo mais elaborado...