18.6.09

Profissão popular

A partir de hoje, jornalistas podem atuar mesmo sem diploma de curso superior

Na tarde de ontem, 17, o órgão máximo do judiciário brasileiro - STF - decidiu que aos profissionais que exercem a profissão de jornalista no Brasil não mais será exigido o diploma de conclusão de curso superior.

A discussão, que se estende desde 2001, com o pedido do Ministério Público Federal e do Sindicato das empresas de rádio e tv, é extensa e cheia de argumentos, tanto a favor da decisão do supremo quanto contra.

O ministro Gilmar Mendes, relator do acórdão, a meu ver, se equivocou na escolha dos argumentos ao comparar o profissional do jornalismo com o chefe de cozinha. “Um excelente chefe de cozinha poderá ser formado numa faculdade de culinária, o que não legitima estarmos a exigir que toda e qualquer refeição seja feita por profissional registrado mediante diploma de curso superior nessa área”, disse.

Não satisfeito, Gilmar (que apareceu mais na mídia nacional neste ano pelos habeas corpus ao banqueiro Daniel Dantas e no bate boca com o ministro Joaquim Barbosa do que pelas suas decisões), ressaltou que a profissão de jornalista não causa perigo à sociedade como a de médico ou engenheiro e que o diploma fere a Constituição Federal e priva o cidadão da liberdade de expressão.

Por um lado, a decisão é acertada (a meu ver, repito), visto que as faculdades que exploram essa habilitação terão mais o que se preocupar em debates, práticas para se diferenciar no mercado, não será apenas um canudo, ou qualquer abstração, que justificará a "credibilidade e imparcialidade", mas sua conduta, seu trabalho e sua capacidade, enfim; sua prática. Navegando no twitter esta manhã encontrei um texto que pode abrir mais essa discussão.

Em conversas antigas com amigos e professores de faculdade este assunto também tinha repercussão. O jornalismo também é arte - a arte de contar histórias - simplesmente. Fazer do uso das palavras algo informativo não é padronizar, deixar duro, imóvel um texto; pelo contrário, é entreter, se fazer entender, contar uma bela história. Lembro-me bem do que dizia quando questionado sobre o assunto. "Não sei se precisaria do diploma pra pensar e escrever como faço hoje, mas, com certeza, sem o curso não estaria me perguntando isso agora", dizia.

Se as faculdades de comunicação continuarem vivas e se adaptando, ensinando cada vez melhor, acho que a profissão deve ganhar muito com os profissionais formados, com o diferencial de um completo estudo.

Por outro lado, dizer que a profissão de jornalista não traz perigo à sociedade como outras é perigoso. Temos vários casos aéticos que estouraram no Brasil (como o do apresentador Gugu Liberato ao forjar entrevista com traficantes ou o mais conhecido de todos - da escola de base - que foi capa das principais revistas do país com a acusação de estupro a crianças e causou grande comoção nacional).

Claro que um canudo ao fim de um período de estudos não é garantia ética de exercício idôneo de nenhuma profissão, mas é muito perigoso escancarar as redações aos que sabem escrever. Gramáticos, poetas, engenheiros, enfim...

Para este lado a discussão segue em outro texto muito bem escrito e argumentado.

Ainda não sei qual das duas correntes eu sigo, mas sempre debati com todos os meus amigos da necessidade de mudanças (o incêndio nasceu de um desses debates né, Pablo) e essa é uma mudança radical que ainda será motivo de muita argumentação.

2 comentários:

Pablo disse...

assunto muito bem apresentado e texto muito bem escrito, Marcelo! essa é a grande vantagem de uma boa faculdade de jornalismo. eu me pego várias vezes pensando nesse assunto, se o curso de publicidade foi importante para mim, especialmente quando me volto mais pra área de audiovisual. mas exatamente como vc dizia (e me lembro muito de vc dizendo isso), se não fosse a faculdade eu provavelmente não estaria me questionando sobre isso.

e pro futuro, só temos a ganhar: a faculdade de jornalismo tem o dever de apresentar um verdadeiro diferencial, criar verdadeiros profissionais; alguns estudantes sem paixão pela arte de escrever podem ficar para trás; e os jornais ganham pessoas de conhecimentos específicos para aquilo que escrevem, tal como acontece com os blogs (economista falando de economia, policial falando de casos policiais etc).

o jornalismo não morreu, afinal, só se democratizou e popularizou.

Marcelo de Freitas disse...

poisi é, lembro me muito desses debates que tinhamos em divinópolis. O problema agora é outro, se não cairmos no protecionismo característico daqui, que relativisa qualquer previsão positiva, será mto bacana para a imprensa e para a população, vc tem razão