Este texto foi escrito pelo Pira, grande amigo meu de orkut. É um texto contra-revolucionário, vindo de um revolucionário. Não concordo com tudo o que ele diz aqui, mas é sempre bom rever nossos conceitos, ter auto-crítica: "Antes de se fechar em seu dogma estude um pouco sobre as escolas político-econômicas, só depois de ver os dois lados da moeda por completos você tem direito a julgar algo". Sem mais delongas, se alguém mais se interessar em divulgar seu texto, contribua: jogue ele na fogueira!
Faísca de: André Pereira (Pira)
Vejo hoje, com lágrimas nos olhos, um bando de revolucionários alienados, alienados por boas idéias, mas mesmo assim alienados. Uma intensa vontade e necessidade de ser “do contra” e quebrar as regras rege grande parte da nossa juventude ativa, eles o fazem sem ao menos pensar no outro lado, no por que, no motivo, pensam que são donos da verdade e que estão certos, pensam saber algo que nem ao menos tentaram entender, talvez, nem ao menos pensem, só seguem a tendência revolucionária. Não é a toa que os jovens não são levados a sério.
Peguemos como exemplo os protestos contra o aumento de tarifa de ônibus em São Paulo. Os revolucionários se enfureceram, foram as ruas protestar e causar danos materiais ao transporte público, grande idéia não? “Para não subir o preço dos ônibus vamos quebrá-los!”, agora os preços sobem para concertar os estragos que vocês fizeram! Agora pensem, será que o preço do transporte público não subiu por causa de um caixa quebrado que não pode manter os ônibus funcionando com o atual acúmulo de capital? Se o preço não subir não há como manter os ônibus funcionando, essa é a verdade. “O acúmulo é suficiente”, vamos ouvir de nossos revolucionários, “a administração que é corrupta!”. Bingo! Protestem contra a administração! Mas espere um pouco, quem elegeu as pessoas que são responsáveis por essa administração? “O povo”, irão dizer, “mas ele foi manipulado pelas emissoras de TV e ainda foi ignorado pelo governo que o quer ignorante para manipulá-lo”. Hum, então agora temos uma bifurcação, protestar contra mídia ou contra o governo? Espera um pouco, quem assiste a essa TV? “O povo”, dirão novamente, “mas é causa da política de pão-e-circo incentivada pelo governo”. Mas pelo amor de qualquer figura que vocês adorem, quem colocou o governo no poder? Novamente dirão “O povo”, eu digo: Vocês!
Uma vez um filósofo indiano chamado Krishnamurti disse: “Você é o mundo”, só que ninguém entendeu – ou leu, vários outros tentarem explicar, mas ninguém entendeu – ou ouviu, então venho aqui novamente tentar demonstrar que o mar é nada mais nada menos do que bilhões de gotas reunidas, e que, sem a gota não há mar.
Voltando a questões políticas, a solução para a melhoria social que estes revolucionários pregam em primeiro plano – porque esta melhoria os afeta diretamente, é adotar uma política neo-liberal, só que estes tolos só conseguem pensar que o neo-liberalismo é uma coisa prejudicial, pois alguém um dia disse isso, ninguém parou para estudar o que é o neo-liberalismo. Com a privatização do sistema de transporte público não haveria desvio de dinheiro e a corrupção seria mínima, pois em uma empresa privada o controle de qualidade é mantido a rédeas curtas, o dono não vai querer prejuízo, mas quando o dono é o governo, ele gera o prejuízo para enriquecer, pois a base que sustenta o transporte vem dos seus impostos e não do bolso dele. A privatização barateia o produto e melhora o serviço, fora que faz do mercado de trabalho um lugar mais justo posto que não haverá político nenhum para colocar seus parentes em cargos da empresa. O neo-liberalismo continua sendo tão mal assim? Antes de se fechar em seu dogma estude um pouco sobre as escolas político-econômicas, só depois de ver os dois lados da moeda por completos você tem direito a julgar algo.
Ah! Adoramos criticar as grandes empresas não? Porque não criticamos também as emergentes? Afinal, um dia serão grandes empresas e também explorarão a mão de obra. Ah sim! Esperemos virarem grandes empresas, quem dará atenção ao nosso protesto a uma empresa pequena? Nós precisamos aparecer e nos sobressairmos perante aos outros revolucionários, se me virem protestando contra a Antártica vão me ignorar!
Os revolucionários se perdem em suas hipocrisias e se prendem em suas morais idiotas. “A Nike explora mão de obra na Ásia, por isso eu uso All Star que é da Converge”, só um adendo, a Converge pertence à Nike, protestar contra a Nike e usar All Star é pura hipocrisia! “O McDonalds utiliza de mão de obra infantil na China para produzir seu brinquedos, os trabalhadores recebem um salário de fome para trabalhar até 18h por dia sem ter nenhuma segurança”, realmente, sinto pena deles, mas tenha certeza que não foi diferente o modo com que foram produzidas as peças do computador que você está usando neste momento. Se a tua desculpa para boicotar alguma coisa é a exploração de trabalho, ao menos não seja hipócrita a ponto de definir que exploração você aceita ou não, exploração é exploração! Os nossos revolucionários boicotam estas empresas porque seguem essa tendência da moda, se tornou uma necessidade para ser aceito no grupo revolucionário, um dogma a se seguir, a condição para fazer parte do grupo, da seita, da religião. Pobres alienados hipócritas, realmente, não merecem serem levados a sério.
Dói cutucar feridas, não? Um mestre nesta arte, Nenê Altro, considerado um traidor, um dia disse: “Boicote a água, assim você vai ser o rebelde mais fodido da sua turma. Boicote a água, pois dentro da torneira vai um pedaço de couro de um animal indefeso. E vai ser mais um radical, vai poder apontar o dedo, vai julgar, julgar, julgar. E todos vão te achar presa, vai ser o mais diferente e vai fazer mais tatuagens com frases de orgulho, e todos vão te achar presa. Boicote, boicote, boicote a água!!! Enquanto isso, longe de seu condomínio, as pessoas se submetem ao trabalho semi-escravo para poder dar a seus filhos o mesmo tanto de comida que você não quer mais e deixa no prato que sua empregada lava e que acaba no lixo... Mas o que isso importa? Você agora é o mais radical, o mais militante, o mais cheio de razão! Vai dar entrevistas, vai chamar atenção e nunca mais vai ser só mais um na multidão”, e também, “Olha o bonzão encostado na esquina, todo radical, no maior visual, na jaqueta de couro frases de anarquia e em contradição, se sente o tal, xinga todo mundo, mexe com as meninas, rouba e justifica em palavras bonitas. Com os seus amigos bate por preconceito e assim ergue a bandeira de seu movimento. Como levar a sério? Olha o nerdão, guerreiro da internet, todo radical, postando no Orkut, em seu fotolog mais de 500 links a causas radicais e movimentos. Mas quem é que resiste a uma boa fofoca e falar mal de tudo pra se sentir o foda? Escondido atrás de um teclado e de um monitor o guerreiro que pretende mudar o mundo. Como levar a sério? É tudo uma piada que perdeu a graça, não há como levar a sério mais nada, tanta besteira junta e conversa pra boi dormir, ninguém sabe ficar na sua e só se divertir”. Taparam os ouvidos e apontaram os dedos, tornaram-se o que são contra, a verdade foi mais do que puderam agüentar e para manter seus egos intactos preferiram ignorá-la e se apoiar em novas mentiras, e assim tudo continuou na mesma, como o sistema sempre quis. “Tente conceber, tente vislumbrar, que é tão igual quanto os que odeia” disse Rodrigo, vocalista do Dead Fish, já apontando o perigo de nos tornamos o que somos contras, os extremos sempre se confundem, quando se usa a mesma arma que o inimigo usa para vencê-lo você acaba se tornado ele.
Os revolucionários ajudam de forma incrivelmente revolucionária o sistema a se manter. O sistema precisa de pessoas que causem confusão para que ele possa se afirmar em defesa daqueles que são prejudicados, não conseguem perceber que só fortalecem o Estado desta maneira? Criticam os hippies e os apolíticos, mas se existe alguém capaz de derrubar o Estado são eles, eles ignoram sua existência e vivem livremente como se nada houvesse, não gastam forças com ele, pois sabem que suas forças só aumentariam a força do Estado. Tantas revoluções houveram e todas só serviram para aumentar o poder do Estado, massacres na Rússia, massacres na China, massacres em Cuba, massacres em todas as partes por onde a revolução passou, esse nome se tornou desculpa para substituir poderes e fazer banhos de sangue.
Hakim Bey está certo ao falar sobre o espírito da revolução e a sua beleza, mas este espírito parece viver ativamente somente em sua massa de manobra, que é facilmente esquecida pelos líderes após a revolução. Mikhail Bakunin um dia afirmou “o poder corrompe”, um tanto quanto hipócrita por parte dele dizendo isso para criticar qualquer forma de autoridade quando ele mesmo era uma, ele tinha poder sobre as massas revolucionárias, era alguém que elas seguiam, sua palavra valia mais do que a da massa de manobra, a massa não pensa e nunca pensou. Não devemos ser massa, devemos ser indivíduos!
Talvez Nietzsche esteja certo ao afirmar que o ser humano já deu o que tinha que dar e agora deve ser superado, é tão mais fácil abrir mão do trabalho de pensar quando outros podem fazer isso por nós não é? A servidão voluntária é uma realidade, nos deixamos a mercê dos outros para sermos controlados, não somos independentes, até mesmo eu, para dar mais credibilidade a este ensaio, fui forçado a usar nomes famosos.
Temos que pensar como gota e não como mar, eu afirmo, a revolução não traz mudança, apenas continua o ciclo, reforma então nem se fala, o que precisamos é de evolução, e só conseguiremos isso pensando como gota.
Não, não devemos pensar em mudar o Estado, devemos pensar em mudar o individuo, Gabriel, o Pensador, não se equivocou em dizer “Muda que quando a gente muda o mundo muda com a gente, a gente muda o mundo na mudança da mente, e quando a mente muda a gente anda pra frente, e quando a gente manda ninguém manda na gente”, o segredo para o mar está na gota.
A revolução é um processo de imposição violento, um grupo decide por toda a população que rumo a política do país vai seguir, que direito tem esses revolucionários de interferir na vida de outros e decidir por eles? Nós podemos revolucionar apenas a nós mesmos, a partir do momento que a nossa revolução atrapalha os outros nós nos tornamos ditadores. Mostremos o caminho ao próximo, mas não podemos esperar que ele siga ou não, devemos respeitar a sua escolha, porém, desde que este respeite a nossa. Cada ser é uma estrela, todos juntos fazemos o grande e majestoso céu, quando todo cidadão ignorar a existência do Estado ele simplesmente deixará de existir, não devemos responder ao Estado de maneira alguma, ele não existe, não há porque se preocupar. O Estado é o amigo imaginário das pessoas, e em alguns casos, o inimigo, mas olhe a sua volta, está vendo as fronteiras? Não, elas não existem.
Mostremos o caminho ao próximo de forma direta e coesa, não é preciso demagogia para mostrar que assim que pararmos de acreditar em duendes eles deixarão de existir. Se ninguém precisa de Estado, se ninguém quer o Estado, o Estado deixa de existir de forma concreta, pois não fizemos revolução nem reforma, nós evoluímos.
Sim, por cutucar a ferida de tantos egos agora serei tachado como traidor, neo-liberal, reacionário, positivista e até mesmo fascista. Não me surpreenderia que o leitor, em sua ignorância, formasse esta idéia de mim, mas tudo bem, o meu objetivo é esmagar a moral revolucionária esquerdista e libertária, este é o meu dever como ser pensante, criticar ao máximo a minha verdade para saber até onde ela pode ser considerada verdade. Será que este ensaio será revolucionário demais para você? Se revoltar com uma crítica é uma atitude conservadora, mudá-la é reformista, criar uma nova é ser revolucionário, crescer com ela é evoluir.
E enquanto você lê isso e acha que faz alguma coisa, as crianças ainda morrem de fome.