11.12.06

Preconceito Cotidiano

O mundo só terá paz quando as pessoas derem mais atenção ao brilho do olhar e não a cor da pele, aparência e a sexualidade.

Elizane Flávia Santos do movimento Hip Hop

Kennedy Dias


Carolina tem 25 anos e há dois trabalha em uma das mais badaladas boates de Divinópolis, diz que a melhor coisa que aconteceu em sua vida foi poder ser independente e pagar suas contas com seu próprio dinheiro. Luciano Eurides é jornalista especializado em esportes e com uma grande experiência em cobrir matérias sobre movimentos socialmente excluídos como Gays, negros e profissionais do sexo. Elizane Flávia Santos é professora de dança, participa há mais de dez anos do movimento Hip Hop e sua principal luta é pela paz e igualdade entre os homens. Essas pessoas representam uma pequena parte dos vários brasileiros que trabalham em busca de conforto e de respeito.

Luciano é um ótimo jornalista esportivo, mas se destacou muito esse ano cobrindo eventos do movimento gay, que começou com a semana de conscientização e terminou com a famosa parada. Ele diz que um dos maiores preconceitos que o grupo homossexual enfrenta é em relação aos impostos: eles pagam 47 e têm direito apenas a 27.

O movimento nunca teve união, segundo Luciano. Eles apenas lutam para diminuir o preconceito contra a classe. O repórter diz “que, os Gays, demonstram internamente uma série de rejeições e rixas que fazem com que o grupo fique mais frágil”.

O jornalista acredita que o preconceito não existe de grupo para grupo e diz que pode existir de membro para membro. Luciano diferencia essa questão afirmando que “um grupo organizado que trabalha pela inserção dos ‘negros’ na sociedade não terá a mesma luta pela inserção dos travestis. São lutas consideradas diferentes”.

O mesmo exemplo acontece com as prostitutas, chamadas hoje de profissionais do sexo. Luciano explica que: “Por mais que você saiba que ela é uma pessoa normal, ela não é aceita dentro da sociedade, principalmente por mulheres em órgãos públicos”. Carolina afirma que o pior de ser prostituta é “quando você fica doente em um lugar que já está trabalhando há mais de três meses”. A situação piora em cidades pequenas, onde todas as pessoas se conhecem.

Carol (como gosta de ser chamada pelos clientes) diz que apesar de todos os problemas que enfrenta, ela consegue bastante dinheiro no final de cada noite, cerca de 400 reais em dias mais movimentados. Só que reclama muito dos travestis. “Essas bibas estão tomando boa parte da clientela, e os homens estão cada dia mais, gostando de gays”.

As prostitutas vivem à margem da sociedade, tanto é que elas passam imperceptíveis muitas vezes, segundo Luciano. “Aquela que vai ter um filho, por exemplo, faz o pré-natal e o parto sem que você fique sabendo da sua profissão. Ninguém sabe na cidade, porque possivelmente não a conhece”.

Luciano não é travesti, mas também não é heterossexual e, ao se incluir no grupo gay, diz que existem várias classificações internas, e que os transexuais e os travestis não são muito bem aceitos pelo resto do grupo. Segundo ele, para um travesti ter uma profissão ou ele é cabeleireiro ou garoto de programa, o que cria uma enorme rixa com as mulheres que também se prostituem. Será que é necessário que um homossexual seja rico, “chique” e famoso como, por exemplo, o Clodovil para ser respeitado.

Existem ainda os gays que preferem negros, mas é uma minoria que aproxima desse grupo, de acordo com Luciano. Ele lamenta que o maior preconceito é em relação a quem se prostitui, “principalmente em órgão públicos e por pessoas que se dizem da paz, do bem e são os guardiões da moral”.

Luciano lembra que o preconceito interno é o pior e que em “casas especializadas existem propagandas para acabar com o preconceito. Há anúncios de festas com entrada mais barata para negros, gordos ou com algum tipo de diferença”. Ainda existem gays que fazem anúncios em revistas excluindo outros grupos, por exemplo, “não quero negros, gordos e baixinhos”.

Elizane Santos é uma jovem dançarina e professora de Hip Hop que acredita que a prostituição e a homossexualidade são escolhas que as pessoas fazem, e não uma necessidade – no caso das prostitutas – ou porque nasceram assim – refere-se aos homossexuais, mas diz que algumas pessoas podem ser por genética sim. “Acredito que existem mulheres que gostam, sim, de ser prostitutas, e há alguns gays que dão impressão de ser por sem-vergonhice mesmo”, ressalta.

Apesar de não conhecer nenhuma prostituta negra em Divinópolis, Elizane diz que quem escolhe essa profissão é porque prefere o caminho mais fácil. “Elas falam que é por necessidade, eu não concordo com isso não. Exitem muitos outros caminhos que as pessoas podem seguir, mas esse sempre está ali pronto para ser escolhido”. Mesmo sabendo que essas pessoas têm que se relacionar com o mais variado tipo de cliente, desde ricos a pobres, sujos a limpos, carinhosos e violentos.

“As pessoas falam sobre preconceito, mas no caso de prostituição, é ruim para própria pessoa, pois a sociedade infelizmente exclui mesmo” afirma Elizane. Ela ressalta que uma pessoa negra que se prostitui sofre preconceito em dobro. “Agora,” diz, “se essa pessoa for branca ela será melhor atendida pelas outras”.

Carol não é negra, mas diz que o preconceito seria o mesmo se fosse, apesar de acreditar que a cor da pele é uma das maiores fontes de exclusão no mundo. Ela diz: “Nós, putas, pelo menos ganhamos dinheiro e só depois vem à discriminação, Gays e negros não ganham nada, apenas são mal tratados”.

Já Luciano explica que o movimento negro é mais bem organizado e isso faz com que o preconceito diminua. Ele diz que quem mais trabalha com a valorização dos negros são as pastorais e as igrejas. Apesar da “alma” negra ainda ser considerada inferior, pois, se um negro é boa pessoa ele é tão bom que parece ter “alma” de branco.

Sobre os negros o assunto é mais fácil de ser tratado, segundo Luciano. “O racismo pela cor da pele já não é mais aceito por ninguém. Existe um combate a esse tipo de preconceito e o racismo já não cabe na sociedade. E isso tudo já vem há algum tempo”. Já em relação ao sexo, cria-se uma barreira, “fica mais complicado de falar sobre o assunto”, diz Luciano Eurides.

As pessoas concordam e apóiam os gays e as prostitutas, a partir do momento em que esses casos não são com eles nem com seus parentes, afirma Elizane, fazendo relação com o preconceito pela cor. “Muitas mães gostam de negros até que seus filhos se envolvem com uma mulher negra. Esse fato é muito comum” lamenta.

Carolina, que gosta de ser chamada de Carol não foi registrada com esse nome nem fala seu nome verdadeiro para seus clientes e patrões, assim como fazia a tão conhecida Raquel Pacheco ou para ex-clientes, Bruna Surfistinha.

Apesar de dizer que gosta de trabalhar com o sexo, Carol quer em um ano sair “dessa vida”. Ela ressalta que, apesar da grana ser boa, nem sempre é bem tratada pelas “pessoas que se dizem normais”. As pessoas de quem ela fala nem sempre são tão elegantes e educadas como ela, que, apesar de não seguir os padrões de etiqueta é uma garota muita atenciosa e educada.

Carol só tem 25 anos, mas aparenta ter uns cinco a mais. Diz que já consumiu muita droga e cigarro. Mas que só gosta de ser garota de programa devido ao bom dinheiro que consegue. Apesar de não trabalhar com clientes de luxo, ela não cobra menos que 100 reais por pessoa. E conta que tem em média uns três clientes por noite, e começa a trabalhar na sexta e pára no domingo.


5 comentários:

Pablo Pamplona disse...

ótimo trabalho de jornalismo investigativo, Kennedy! gostei muito mesmo, bem interessante! parabéns =D

Pablo Pamplona disse...

(quanto ao assunto, nada a acrescentar... sua matéria fala tudo.)

Michel disse...

legal Kennedy.... continue assim...
com entrevistas desse tema sobre a sociedade.... bacana isso

ah... eu ja li antes.. hehe

Franciely disse...

- Adoooooreeei .. ! Super interessante a matéria! :)

Marcelo de Freitas disse...

grande garoto! mto bom o texto, e, como o pablo disse, nada mais a acrescentar, vejo que está a cada dia melhor, rapaz. parabéns!!!!!!!