15.11.06

Queimando o preconceito!!!!

Comentem sobre esse entrevista que fiz sobre como acontece entre o preconceito de grupos!!! Mas falem o que for preciso, comentem, expressem seus adores pelo mundo dos excluídos:


Nos bastidores da exclusão

O repórter Luciano Eurides conta tudo sobre o que acontece dentro dos grupos de Gays, Negros e Prostitutas.
por Kennedy Dias

O repórter Luciano Eurides, especializado em cobrir eventos relacionados com movimentos de grupos excluídos em Divinópolis conta um pouco de como acontece o preconceito entre os grupos e da sociedade organizada em padrões héteros, brancos e cristãos com as pessoas que fazem parte destes grupos que são marginalizados.
Luciano, que além de ser bastante engajado em movimentos anti exclusão, se declarou participante de um dos grupos e diz não entender como todos têm que pagar os mesmos impostos, mas não tem os mesmos direitos. A desigualdade sexual e racial, segundo ele, está em todos os grupos e é por isso que aqueles que são marginalizados não conseguem respeito das elites dominantes.
Durante a entrevista o repórter Luciano Eurides contou tudo o que acontece dentro e fora dos movimentos, sempre focando mais o Movimento Gay de Divinópolis (MGD).

Quanto tempo você trabalha como repórter e faz matérias sobre grupos excluídos?
Como repórter são sete anos. Agora com grupos socialmente excluídos já são três anos, e começou aqui em Divinópolis, em específico junto ao movimento Gay da cidade. E assim estaria nascendo a idéia de formar um grupo que trabalhasse dentro desse bloco de pessoas.
E até então essa idéia já era trabalhada em Belo Horizonte, mas em Divinópolis ainda não...
...aí que você começou, então, a fazer matérias sobre o movimento gay?
... é. Aqui em Divinópolis aconteceu a dez anos atrás o Futgay, que era uma brincadeira para arrecadar fundos. E jogavam mulheres versus os gays. E homens mesmo (quando Luciano fala homens ele se refere aos heterossexuais) se vestiam de mulher e jogavam, alguns até eram gays bastante conhecidos aí na cidade. Era tudo coordenado pelo Itamar de Oliveira.
Depois isso acabou.
Com o tempo o Mauro Machado retomou o Miss gay, que também apareceu como uma brincadeira onde a maioria eram homens que se vestiam de mulher, não eram gays, mas que concorriam...aí o Mauro Machado deu uns critérios a mais para o evento, como ser realmente gay para participar. E diante disso, começou então um trabalho.
E nós começamos a dar cobertura jornalística a esse tipo de evento, porque ele cresceu muito. Nos dois primeiros anos ninguém ia, era mais aquele grupinho de pessoas. Mas já estamos com dez anos de Miss Gay e, nos últimos seis já foi um evento regional... A coisa, tomou uma dimensão que ninguém esperava, nasceu de uma brincadeira feita por jornalistas, então sempre esteve no meio. Porém ninguém esperava que chegasse a esse ponto, tanto é que o Mauro Machado hoje só trabalha com isso.

E sobre os outros grupos, quais são os tipos de matérias que você já fez e como elas foram trabalhadas?
Olha, especialmente com relação aos negros, por exemplo: Já é um grupo mais trabalhado, pela igreja, e principalmente hoje existem pastorais dedicadas a isso. Quem trabalhava muito com isso, era a Cida que hoje é do PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados). Ela trabalhou muito a questão da mulher negra, que realmente havia todo um trabalho diante do fato.

E outros movimentos que aconteceram...
...então você pode dizer que o movimento negro é o mais organizado aqui em Divinópolis...
Pelo menos é o que há mais tempo foi trabalhado. Era um assunto mais fácil de ser tratado, o racismo pela cor da pele já não é mais aceito por ninguém. Existe um combate a esse tipo de preconceito e, o racismo já não cabe na sociedade. E isso tudo já vem a algum tempo...
...mas ainda existe.
Existe, mas já vem a algum tempo sendo trabalhado.
Agora em relação contra o sexo, cria-se uma barreira e fica mais complicado de falar sobre o assunto.

Então, comparando os movimentos gays e negros. Você acha que existe preconceito entre esses dois grupos, de negros para gays ou de gays para negros? E como que isso acontece?
De grupo para grupo não, pode existir de membro para membro. Um grupo, digamos, organizado, também não existe união, que trabalha pela inserção dos negros na sociedade não vão ter a mesma luta pela inserção dos travestis. São lutas consideradas diferentes.
O mesmo acontece no caso das prostitutas. Que por mais que você saiba que ela é uma pessoa normal ela não é aceita dentro da sociedade, principalmente por mulheres em órgãos públicos.

Elas são as que sofrem mais preconceito?
Principalmente em órgão públicos e por pessoas que se dizem da paz do bem e da moral.
As prostitutas vivem à margem da sociedade, tanto é que elas passam imperceptíveis muitas vezes. Aquela que vai ter um filho, por exemplo, faz o pré-natal e o parto sem que você fique sabendo da profissão dela. Ninguém sabe na cidade, porque possivelmente não a conhecem...
...elas têm que se deslocarem para outras cidades para fazer algum tipo de tratamento...
...é o chamado processo cigano...
...como que funciona?
...elas têm que sempre passar de uma cidade para outra. Uma pelo comércio, o corpo não de ficar muito tempo em uma casa, mas aí ela passa a mudar de cidade e talvez de estado. E isso vira uma rotina em sua vida...
...e é difícil jornalisticamente falando você ter uma fonte nesse grupo, porque a pessoa não se estabelece na cidade, e quando estabelece cria-se certo status. Em Divinópolis, por exemplo, tem a Rosa Palmeirão que há muitos anos está na cidade, e já tem um status maior, ela já “conquistou um respeito” da sociedade. Agora as suas funcionárias não, continuam naquele nível baixo e tem que passar por esse processo.
Hoje elas estão em Divinópolis amanhã em Perdigão depois em Araujo e assim por diante. Se você possivelmente for a Bom Despacho pode encontrar uma delas.
Tem casos e casos. Existe também hoje a prostituição mais elitizada que é o caso das faculdades. Garotas universitárias que precisão pagar as faculdades fazem o famoso, garota de programa social, mais...

...seria uma coisa menos profissional?
...não...
...ou mais inocente que as prostitutas que usam a profissão como trabalho fixo?
...é, muda apenas o ambiente de trabalho. Tanto aquelas casas de prostituição especializadas que servem a todo tipo de pessoas que procurar, quanto aquela que se oferece através de internet, telefone e na faculdade em troca do dinheiro. Ela tem uma chance de escolher...
...ela é autônoma...
...autônoma, e tem chance de escolher. Mas isso vai até onde está sua condição financeira.
Normalmente esse tipo de prostituição fica mais oculto por um tempo maior, do que aquelas mulheres que ficam expostas na casa especializadas.

Esse fato cria uma rixa entre as universitárias e as das casas especializadas?
Com certeza, aí existe preconceito.
Elas são tidas como patricinhas, verbete é usado ai na rua pelos adolescentes normalmente. Mas porque patricinhas, devido a elas terem uma condição financeira, fazerem faculdades, serem formadas ou mesmo porque andam na rua normalmente e ninguém, a não ser os usuários de seus serviços, as reconhecem. Elas buscam a classe social mais alta da cidade.

Na questão do preconceito interno. Existe dentro do grupo gay esse tipo de preconceito?
Tem, e muito! E muito!
...tem como você detalhar isso...
Tem! “Vamo bora”!
Dentro do movimento gay são distribuídos certos atributos, e certos status. Vamos colocar assim: Existe o gay que é tido como um todo; o travesti é aquele homem que se veste de mulher o tempo todo, porque o que é só eventualmente é o transformista.
Então temos o travesti, aquele que passa o dia inteiro montado e tem o comportamento diário como mulher. E aquele que para alguma eventualidade se transforma é o transformista. E com isso definimos os dois mais característicos.
...esses são os mais visíveis socialmente...
...isso, mais visíveis. Agora, têm os ativos e os passivos, subgrupos dentro das classificações.
Então retomando, temos as lésbicas e os transexuais. As lésbicas são mulheres que relacionam entre si. Os bissexuais são homens que relacionam com homens e mulheres, e também mulheres com mulher e homem.
Os transexuais são os que fizeram a mudança de sexo. Esse subgrupo é o menor e é o que mais sofre preconceito.

Por quê?
Porque o próprio gay não aceita que o outro seja diferente dele, ele tem que ser igual (risos). É uma questão muito complicada até mesmo de explicar. É visível dentro do próprio grupo um gay que não aceita outro, se referindo a ele como “aquele veado!”. Ele quer dizer que está buscando é homem e o cara se torna veado. E eles não se aceitam dentro do mesmo grupo.
O travesti é conhecido dentro do grupo como traveco. Como muitos falam o Miss Trava. E isso foi o próprio grupo que ridicularizou um subgrupo. E eles acham assim: “Nasci homem vou morrer homem, porém gosto de homem”. Ou mesmo o caso das lésbicas que acham que os travestis são cópias, das mulheres, e que eles nem deveriam existir.

O alvo dos travestis é o homem hétero?
Sim mas existem casos de travestis casados com travestis. O hétero é uma busca deles.
O primeiro problema é o preconceito que eles sofrem com relação ao emprego. Uma empresa não contrata um travesti como secretária – acho isso uma coisa muito rara, se é que existe. Eu nunca vi em toda minha vida, nem tive a graça de conhecer alguém que conhecesse isso. E eles trabalham na noite, prostituição ou como cabeleireiros em salões de beleza.

E isso cria problemas e preconceitos com as prostitutas, por uma questão de mercado?
Cria sim. Em uma casa noturna é raro você ver um travesti trabalhando, normalmente você encontra um gay não travestido, com roupas de homem e que vai servir as vontades dali.
Agora existem as boates especializadas para o mundo gay, onde você encontra de tudo dentro do mundo homossexual. E em grandes cidades existem várias dessas casas, aqui existe apenas uma que é o Gloss e lá acontecem shows, e tem a Tribus que começou a receber o público, mas não é especializada ainda.
E na Tribus quem geralmente freqüenta são os chamados bofes ou ueres.
Explica melhor essas classificações aí.
O uere é o gay novinho, o iniciante...
...uma categoria entes do bofe?
...não, o bofe é ativo e o uere é passivo.

Dentre todos os eventos que você já cobriu, é normal que gays queiram negros ou negros queiram gays brancos? Por que, no mundo hétero, os relacionamentos entre brancos e negros existem, mas são poucos. Como que funciona isso no mundo gay?
Temos que desmistificar isso. Existe o preconceito sim, mas a relação dos gordinhos, peludos, mais velhos (monas). Existe uma especificação, eu quero isso ou aquilo. E existem os que preferem negros, mas é uma minoria que aproxima desse grupo.
Em eventos não é normal esse tipo de preconceito. Pois um tipo de pessoa que tem um gosto que exclui seu próprio grupo ou a outros, não costumam ir aos eventos.
Nas casas especializadas existem propagandas para acabar com o preconceito. Com anúncios de festas com entrada mais barata para negros, gordos ou com algum tipo de diferença. Mas ainda existem gays que fazem anúncios em revistas excluindo outros grupos, por exemplo, não quero negros, gordos e baixinhos.
E o maior problema é que hoje no Brasil são 37 impostos e nós gays temos bem menos direitos do que os demais. Parece que são 47 impostos no total e que o gay só tem direito a 27, dez a menos que os héteros.

2 comentários:

Maisa disse...

Então essa é a tal entrevista de ontem..
Muito legal!
Tenho vontade de fazer jornalismo :S
Parabéns pelo blog, Pablo, Marcelo e os outros..

Luana disse...

Meninos, o Blog está muito legal.
Kennedy, essa entrevista ficou ótima, Parabéns!!!